Continuação da história. Boa leitura…
Quando dia raiou, Gustavo disse que iria para o centro. “Preciso comprar veneno para os ratos”, foram suas palavras. Juliana não o contradisse, mas não gostava do modo que o marido falava. Era notável que ele sabia que não eram ratos.
Muitas vezes parece que vale mais a pena forçar uma mentira, para que assim a vida siga como queremos. O que o casal ainda não entendia, é que certas coisas não podem ser ignoradas.
Naquela tarde, enquanto Gustavo dirigia até o centro em busca daquele que seria o remédio para as noites mal dormidas, para o medo e toda aquele clima de infelicidade, sua esposa Juliana recebeu uma visita.
6
Ela preparava o almoço ouvindo uma música para tentar distrair-se. Os acontecimentos recentes a importunavam de tal forma que estava ficando difícil manter o juízo até mesmo durante o dia, quando tudo aparentava certa normalidade.
Ainda assim, as palavras do policial traziam um misto de apreensão e conforto, coisa que ela ainda não sabia distinguir. Sabia que Gustavo empenhara boa parte de suas economias naquela casa, e sair dali não era opção.
Não pelo menos enquanto ele tivesse cabeça pra aguentar aquilo. Porém a dúvida era: Até aonde ele aguentaria? Juliana conhecia seu marido. Sabia que ele era insistente, e que se algo não o convencesse, faria o impossível para provar que estava certo.
Enquanto a carne de porco dourava sob o forno quente, Juliana checava a consistência da massa do doce que fizera. Estava no ponto. Agora era só colocar no congelador, e quando o marido voltasse ambos teriam uma farta refeição.
Com certeza, isso a ajudaria a esquecer da perturbação que rondava a casa.
Após colocar o doce na geladeira, a campainha soou, quebrando a harmonia que reinava durante a manhã.
Juliana correu até a porta. A sua frente, mais um cortejo fúnebre seguia rua adentro do cemitério. Aquela visão que nos primeiros dias a incomodava, tornou-se normal e casual. Juliana sentia certo remorso por conviver tão perto da morte, e a ideia de que ela estava agora dentro daquela casa lhe dava arrepios.
-Senhora – uma voz engasgada soou pouco abaixo dela, fazendo com que ela inclinasse o pescoço para ver -, posso entrar?
Abaixo de Juliana, um velho senhor em uma cadeira de rodas estendia cordialmente a mão.
-Sou João, antigo dono desta casa. Gostaria de falar com seu marido.
O velho carregava uma expressão cansada, o que o deixava com a aparência ainda mais velha, e suas mãos pareciam duras, mas não entrevadas, o que lhe permitia controlar a cadeira de rodas. O cabelo em sua cabeça estava ralo, os olhos fundos dentro de sua cara magra pareciam estar prestes a ser sugados a qualquer momento e sua boca estava seca. Se ela não soubesse a idade de João, facilmente lhe daria uns 90 anos.
-Oh, sim, por favor, entre. Meu marido foi até a cidade buscar alguma coisa, e estou preparando o almoço. Importa-se de esperar?
O velho fez que não com a cabeça. Parecia estar disposto a não falar, ou pelo menos era de poucas palavras. Naquelas condições, Juliana se surpreendera de como uma pessoa como ele chegou até ali.
-Quer ajuda com a cadeira? – perguntou meio desajeitada.
-Seria muito bom querida. Eu agradeço.
7
O padre Arthur seguia solene junto à família de João. Seus filhos e a ex-esposa caminhavam cabisbaixos ao lado do caixão, cemitério adentro. Teve tempo de ver Juliana abrindo a porta de casa, e aparentemente conversando com alguém. Ele acenou para ela discretamente, porém ela pareceu não ter notado.
João, que há pouco tempo saíra daquela casa, agora teria por morada eterna justamente o cemitério a sua frente. “Que assim seja” – pensava o padre que em sem íntimo temia que o pior acontecesse. “Vou enterra-lo, e em seguida verei como Gustavo e a esposa estão. Acho que é o certo a fazer depois de uma tristeza dessas…”.
A cerimônia durou pouco tempo. A chuva começou a cair pesada, e os poucos que compareceram ao funeral foram embora apressados.
Logo, o cemitério esvaziou-se e com esse vazio, uma estranha sensação de que havia algo errado invadiu a mente de Arthur.
Na casa de Gustavo, uma fumaça enegrecida entrava pela janela da cozinha.
Ignorando a chuva que tinha se convertido em tempestade, Arthur correu em direção a casa.
Gustavo e Juliana, assim como o próprio João, ignoraram os mortos.
8
-Aceita uma bebida? – Juliana perguntou a João.
-Seu marido vai demorar? Não sei por quanto tempo posso ficar aqui. – João parecia inquieto. Parecia que algo o incomodava extremamente.
Juliana insistia em ser cortês. O tempo lá fora estava fechado, e logo uma chuva forte viria. Seria um inconveniente Gustavo ficaria preso na chuva, e João ficaria preso na casa com ela. Tirou o celular do bolso, e antes de ir até a cozinha repetiu:
- Se é pela chuva não precisa se preocupar. Tem certeza de que não quer nada?
O velho nada respondeu.
-Vou ligar para meu marido – disse ela um pouco irritada pelo silêncio.
João continuou ali, calado. Era preciso Gustavo chegar. Só assim ele acreditaria no que tanto se recusava.
9
O limpador movia-se rápido numa tentativa inútil de liberar a visão de Gustavo. O veneno estava ali, e, além disso, ele resolvera comprar uma garrafa de vinho. Iriam matar os malditos ratos, se embebedar com a mulher, fazer amor e dormir sob o efeito do álcool, a fim de esquecer todo terror que vinha experimentando nos últimos dias.
Dirigia devagar, praguejando mentalmente a má sorte, e pensando nas palavras do policial: “Os mortos habitam a casa…”.
-Que pensamento ridículo de se ter – disse consigo mesmo -. Uma pessoa dessas certamente merece cuidados especiais.
Ainda entregue a seus pensamentos, Gustavo fez uma curva e se deparou com uma árvore caída, bloqueando sua passagem. Parou o carro incrédulo. Estava a dez minutos de casa, e naquela chuva de merda, certamente levaria o dobro para chegar de carro, e quem sabe quantas horas para ir a pé. Indignado, puxou o freio de mão, baixou a cabeça e suspirou em desalento. O que faltava acontecer agora?
A árvore não era grande. Certamente poderia ser removida sem muito esforço, mas Gustavo voltaria encharcado para o carro. Esperar não adiantaria. Havia muitos casos semelhantes acontecendo, e a ajuda levaria horas para chegar até ali. Decidido, abriu a porta do carro quando seu celular tocou.
-Amor – a voz do outro lado soava estranha. Uma interferência muito forte fazia com que a ligação chegasse cortada em seus ouvidos -. João, es… fa.. com v…
-O quê? Não estou entendendo Ju… A ligação está cortada.
Um som alto de estática eclodiu do aparelho, fazendo os ouvidos de Gustavo doer. Ele afastou o celular e compreendeu:
-Jo… está aqui. João… falar com você!
Gustavo gelou.
Encontrara o padre Arthur em frente ao cemitério, e este tinha dito que dentro de uma ou duas horas o corpo de João chegaria para o funeral. Arthur se adiantara, pois queria ter certeza de que a cova estaria aberta para quando o corpo chegasse. Com a chuva que se aproximava, ele não queria correr o risco de ver os coveiros jogando lama sobre o caixão, e nem mesmo a cova cheia de água, por isso as coisas seriam adiantadas.
A causa da morte? Ninguém sabia. Morreu enquanto estava dormindo…
Após esse breve momento de lembrança, Gustavo berrou:
- Juliana! Saia daí agora! Procure o padre Arthur, já estou a caminho! Saia daí agora!
O som de um clique estalou no celular. A chamada caíra. Em desespero, Gustavo saiu do carro e dirigiu-se para a árvore.
Não eram ratos que estavam em sua casa.
10
- Gustavo no celular? Perguntou o pálido João.
- Sim, mas a ligação caiu. Ele disse algo sobre o Padre Arthur. – Juliana guardou o celular no bolso e encarou o velha na cadeira de rodas.
- O Padre está ocupado agora, daqui a pouco é a hora de meu enterro. Falou o homem calmamente.
A mulher paralisou ao ouvir aquelas palavras:
“Daqui a pouco é hora de meu enterro…”
- Sim, é isso mesmo menina, eu morri, morri hoje durante a madrugada e estou aqui, para provar para o seu marido, que essa casa não pertence apenas aos vivos.
Juliana paralisou, queria sair da cozinha, trancar-se em seu quarto e ficar aguardando o marido, mas não tinha forças para isso.
- Essa casa é especial senhorita, existe um laço entre ela e o cemitério, antes, quando eu morava aqui, eu não compreendia, mas agora morto, tudo é tão claro! Os mortos precisam dos vivos quando não seguem em frente, precisam do calor daquele que o coração ainda bate e além disso, quando mortos não temos mais o direito de ir vir, é uma libertação que aprisiona…
- Não é possível.
- É sim… Infelizmente eu não posso perder tempo, não parece, mas também estou morrendo de medo. – Falou o velho olhando para as próprias mãos. – Não vamos perder tempo querida, venha até mim, me de sua mão.
Como se estivesse hipnotizada, a mulher caminhou na direção de João e lhe deu a mão.
O toque frio lhe assustou, mas Juliana não recuou.
- Feche os olhos, vou te mostrar como as coisas realmente são por aqui. – Sussurrou o velho enquanto suavemente apertava a mão de Juliana.
A moça fechou e em vez da escuridão, o que viu, foi como sua casa era na verdade. Viu a residência sob o olhar dos defuntos.
CONTINUA…
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